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Segunda-feira, 26 de Julho de 2004

In memoriam

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Não assinalei a passagem do Carlos Paredes há uns dias pois existia em mim, então, uma dor bem maior. Agora, e com a minha alma mais leve, não resisto a publicar aqui, com o devido respeito, um texto (recebido via e-mail), de alguém que conheceu melhor as suas várias facetas:o Homem, o Artista, o amigo.


"Carlos Paredes, 16/02/1925 – 23/07/2004


Lá fora, franquearam-lhe portas como as da ópera de Berlim.

Cá dentro, concederam-lhe a sobrevivência como arquivador de radiografias, depois da prisão política e da expulsão da função pública, às ordens do ditador.

Lá fora, tê-lo-ão fruído mais do que nós, apesar das dificuldades que naturalmente lhes percebemos em reconhecer essa outra guitarra, a de Paredes, que não é a guitarra chorosa e suplicante – exportada durante décadas, travestida de identidade nacional – mas a guitarra que rasgou a mordaça e somou, num grito genial, a voz angustiada de um povo que, ao longo dessas mesmas décadas, construiu teimosamente a sua liberdade.

Cá dentro, poucas foram as oportunidades de o fruir (como ele e nós merecíamos), excepção feita para os raros momentos em que rebates da consciência privada afloraram a televisão pública, revelando-nos, pela calada da noite e quase clandestinamente, momentos como o célebre concerto com Charlie Haden, passado às 3 da madrugada… (certamente para castigo de todos quantos ousam questionar a liderança pimba da novíssima ditadura, a da democrática televisão que todos pagamos).

Paredes desapareceu hoje, por volta das 6 da manhã. E, como lhe era próprio, evitando discretamente a nobreza dos horários.

Cá dentro, adivinharemos facilmente as homenagens que se sucederão: podendo (… e podem!), continuarão a sugá-lo na morte, se possível redobrando o vigor com que o fizeram em vida, coisa que também é costume e muito nacional.

Nós continuaremos a amá-lo. A ele e à sua música, que são nossos.

Nem o choro será novo, que não se pode ouvi-lo sem que a sua força nos esgarre por dentro…

… cá dentro, ou lá fora.

O mundo perdeu um génio, também um homem bom.

Portugal perdeu um oficial administrativo, aposentado por invalidez.

De repente, ocorreu-me: quem não deverá faltar à última despedida será o novel e mediático primeiro-ministro… pelo menos desta vez, estará garantido um primetime.

Cabrão de país!…

Para a memória: na mesma noite em que o corpo de Paredes viria a desistir, ecos da sua criação soaram em Monsaraz: os Verdes Anos refeitos nas mãos, também mestras, de Pedro Jóia… um concerto memorável.

"Hasta siempre, camarada" (tanta saudade, já…)

José Eliseu Pinto

Évora, 23 de Julho de 2004"

publicado por Andre às 20:52
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