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Sexta-feira, 24 de Setembro de 2004

O tempora! O mores!

Este texto tá incrível, verdadeiro e sentido. Foi-me enviado por e-mail por um amigo.
Tirem 2 minutinhos para o ler... e talvez comentar!
(seja qual for a cor partidária ou política)

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A prosa é do Alexandre


É bem feito. Os sinais estavam lá.

As novelas. As intermináveis e desconchavadas novelas em que todas
crianças frequentam colégios da Linha e são louras e precocemente
parolas. As Lux e as Flash. O telejornal da TVI. O futebolês e a sua
miríade de constelações e estrelas, as maiores, as menores e as anãs, os
dirigentes, os agentes, os jogadores, as transferências e os treinadores
de bancada e de café. O 24 Horas e as suas manchetes sanguíneas e
colunas rosa-choque. Os três diários desportivos. Os Big Brother's e as
chusmas de indigentes que revelaram, geraram e adularam.

Os caciques locais. Felgueiras. Marco de Canaveses. A justiça, apoucada
e achincalhada. A Alexandra Solnado e as conversas de Jesus com a
cabritinha.

As abstenções, galopantes. A política, trauliteira e lapuz. Os
impropérios lançados a esmo, pelos carroceiros e pelas azêmolas que
habitam o Parlamento e as autarquias deste país de norte a sul. Os
deputados que o são porque dominam as concelhias. O triunfo da
demagogia, a vitória fácil do populismo.

A farsa da Madeira, esse espectáculo pornográfico instalado há anos na
Casa da Vigia, onde perora um senhor anti-democrata e fascista, adulado
por um dos dois maiores partidos portugueses.

A lenta agonia da Cultura. A asfixia da Ciência. A sangria, continuada,
mortal, dos nossos melhores homens e mulheres, em demanda de melhores
países, de outras instituições que os animem, que os reconheçam.

A invasão obscena do betão em tudo o que é Parque Natural, zona
protegida, Rede Natura, arriba fóssil, rio selvagem, orla costeira.

As oportunidades perdidas. O Alqueva. Os fundos de Coesão. O Fundo
Social Europeu. Os subsídios à agricultura dados de mão beijada a
pessoas que não sabem distinguir um cão de uma ovelha. Os jipes. Os
condomínios privados. Os montes no Alentejo. As férias no Brasil e as
festas no Algarve.

Os milhares que provam, provado, o adágio que diz que quem cabritos
vende e cabras não tem, de algum lado lhe vem.

Os Ferraris do Vale do Ave. Os processos que prescreveram. Os jornais,
as rádios, as revistas, as televisões que estão na mão de apenas três
grandes grupos económicos. As campanhas eleitorais, pagas a peso de
ouro, a troco não se sabe bem do quê. As negociatas. As promessas. As
mentiras. Os impostos que iriam descer e afinal sobem. O emprego que
iria subir e afinal desce. O IVA que já foi a 17% e agora é a 19%.

O Santana Lopes que passou do Sporting para a Figueira, da Figueira para
Lisboa e de todas as vezes foi eleito. Democraticamente. E que foi
alçado a número dois do PSD estando, por esse facto, na linha de
sucessão para o cargo de primeiro-ministro.

E, quando tudo isso aconteceu, onde estávamos nós?

Na praia? No café? Na Ler Devagar, a folhear Heidegger? Em Londres, a
admirar Buckingham Palace?

Não sei onde estávamos. Sei, apenas, que estávamos calados. E é por isso
que é bem feito.

Demitimo-nos do dever de falar, de esclarecer, de protestar, de votar.

E, se alguns, poucos, falavam, muitos assobiavam para o ar, como se não
fosse nada connosco. Era sempre com eles, com os políticos. E estávamos
errados: a política é nossa. A política somos nós que a devemos fazer,
participando, votando, reclamando, exigindo.

Abstivemo-nos e as coisas aconteceram. Os factos surgiram e ficaram
impunes. Os acontecimentos seguiram o seu curso, o barco singrou
desgovernado, com os incapazes ao leme e os arrivistas a bater palmas.
Agora que o impensável se acastela no horizonte, assim ficamos, aflitos,
o coração nas mãos, a perguntarmo-nos: como foi possível? Como será
possível?

E mais aflitos ainda ficamos porque sabemos: é possível. Pode acontecer.

Pode acontecer que Paulo Portas e Santana Lopes, dois parasitas do
poder, dois demagogos, dois populistas, se enquistem em São Bento.

Mesmo as eleições antecipadas, a ocorrer, poderão não o impedir. Mais:
as eleições poderão até ser o impulso que necessita essa associação
simbiótica contra-natura para se declarar vitoriosa. Bastam uma
fotografias nas revistas do coração, uns beijinhos nalgumas feiras, uns
ósculos nalgumas recepções, três ou quatro discursos ocos, cheios de
sonoridade e de impacto televisivo, a aura de salvadores da pátria e dos
bons costumes, e lá vai o povinho do futebol, dos morangos com açúcar e
do 24 horas a correr às urnas, ungir o Sr. Feliz e o Sr. Contente com os
louros do poder.

E, mesmo que não aconteçam eleições, a cartilha está igualmente traçada.
Os impostos a cair. As festas para o povo pagas com o erário público,
esse erário minguante que à custa de tanto e de tantos foi custosamente
aforrado nos dois últimos anos. As promoções em catadupa, os Institutos
Estatais criados por decreto, para promover os novos boys e criar novos
empregos efémeros. Os gastos à tripa forra para contentar taxistas,
sindicatos, peixeiras, comerciantes, função pública.

Os saneamentos. A ostracização dos críticos, dos descontentes, dos que
se manifestam.

Tudo isto pode acontecer. Não só por dois anos, mas também por quatro.
Ou mais. Até que o dinheiro se acabe ou até que vague o cargo de
Presidente de qualquer coisa. Que até pode ser o do País, que a malta
nem se importa muito.

Afinal, é fartar vilanagem!


publicado por Andre às 19:46
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5 comentários:
De Anónimo a 12 de Outubro de 2004 às 20:05
Caro Alexandre, já está alterado e enviei-lhe um email com algumas palavritas. Um abraçoAndré
(http://temavondo.blogs.sapo.pt)
(mailto:andre.claudio@mail.pt)
De Anónimo a 11 de Outubro de 2004 às 14:06
O texto não é do JPP. Por acaso, é meu.Alexandre
(http://alexandre-monteiro.blogspot.com)
(mailto:arqueologia@portugalmail.pt)
De Anónimo a 29 de Setembro de 2004 às 17:36
se virem os documentários do M. Moore vão perceber que os do lado de lá do oceano, a norte do equador, vulgo norte-americanos são muito, mas mesmo muito muito piores que nós.

são incultos e dum atraso que até mete dó.

Maria.Maria
</a>
(mailto:)
De Anónimo a 28 de Setembro de 2004 às 00:41
Ainda bem que tenho este blog nos bookmarks. Farei a minha parte, divulgando. Afinal de contas "o que faz falta é avisar a malta"...
Manuel
</a>
(mailto:gmm44@hotmail.com)
De Anónimo a 27 de Setembro de 2004 às 02:17
irraaaaaaaaaaaaaaaa e talvez Luís Afonso, diga tudo isto numa prancha de cartoon e assim, estaríamos a rir de nós mesmos, continuando no assobio despreocupado...Viva Portugal e Portugal Positivo, ou positivamente cego com o mundo.Luis Dinis
</a>
(mailto:)

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